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25 de nov de 2009

Entrevista: Raul Boesel

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(Renato Bellote) Como foi o começo da carreira no kart? Você já tinha vontade de ser um profissional das pistas naquela época?

Raul Boesel: Na realidade começou meio por acaso, um amigo me convidou para ir ao kartódromo em Curitiba para ajudá-lo a empurrar o Kart, nesse dia me deixou dar umas voltas. Daquele dia em diante mudou minha vida, o que eu queria era correr de kart, tinha uns 14 anos, mas levou mais um ano para convencer meus pais a me deixarem correr.

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(Renato Bellote) Do kart você disputou provas no Grupo C e, logo em seguida, foi para a Europa. Como se deu essa transição?

Raul Boesel: Parei o Kart aos 18 anos para entrar na Faculdade de engenharia civil, fiz 6 meses em Itatiba e várias vezes fui assistir corridas em Interlagos, o próximo passo era tentar correr de carro. Minha primeira corrida foi na inauguração do autódromo do Rio na categoria então denominada Grupo C, formada por Opalas e os Mavericks. Na época a corrida era dividida em duas baterias e podia ter dois pilotos, cada um correndo uma. Dividi o carro com um amigo de Curitiba que corria na época. Em 1978 fiz o Campeonato Paranaense sendo vice-campeão e disputei o Campeonato Brasileiro que era dividido em duas provas, uma em Goiânia e outra em Brasília e, por incrível que pareça, liderei a corrida de Brasília por um bom tempo. No ano seguinte foi o começo oficial da Stock Car no Brasil, ganhei 3 provas, disputei o campeonato até o final e fui considerado o piloto revelação do ano. Aconselhado pelo Afonso Giaffone fui tentar a sorte na F-Ford na Inglaterra e foi aí que começou o sonho de chegar a Fórmula 1


(Renato Bellote) E chegar à Fórmula 1, era um sonho?

Raul Boesel: Quando comecei no automobilismo a Fórmula 1 era muito distante, coisa de sonho mesmo, desde o começo em minha carreira sempre fui muito concentrado e com muita perseverança, mas sem muitas expectativas, sempre dando um passo de cada vez. Quando os resultados foram positivos na F-Ford, venci 9 corridas e fui vice-campeão dos dois campeonatos mais importantes, vi que tinha potencial para um dia chegar a Fórmula 1.


(Renato Bellote) Na Fórmula Indy foram quase vinte anos. O público norte-americano é diferente do europeu em relação a atenção que dá aos pilotos?

Raul Boesel: Acredito que sim, e a recíproca é verdadeira, os pilotos na Indy também dão mais atenção ao público, têm mais contato, existe uma admiração e respeito pelos pilotos, independente se está numa boa equipe ou não, se está tendo bons resultados ou não, só de você se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis já é considerado pelo público uma grande realização.

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(Renato Bellote) Uma de suas principais características sempre foi a versatilidade. Poucos pilotos conseguem participar de categorias diferentes com sucesso. Isso acabou ajudando na carreira?

Raul Boesel: Acredito que pelo começo de minha carreira ter sido em carros de turismo e depois Fórmula, me adaptei em diversos tipos de carro, mas também acredito que carro de corrida tem 4 rodas e pilotos têm que se adaptar a qualquer tipo.


(Renato Bellote) Você também foi um dos pilotos que abriu as portas para os brasileiros na Indy. Como se sente vendo que o caminho traçado teve seguidores e continua atraindo novos talentos do país?

Raul Boesel: Na verdade fui um dos pioneiros, mas o primeiro foi o Emerson Fittipaldi, corremos juntos por vários anos no início. Acredito que abrimos o mercado americano para os brasileiros que viram na Indy Car uma boa oportunidade para seguir a carreira.

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(Renato Bellote) Uma de suas maiores conquistas foi o Campeonato Mundial de Marcas pela Jaguar em 1987. Conte-nos como surgiu a oportunidade de pilotar pela marca inglesa.

Raul Boesel: Acabei correndo na Jaguar por força das circunstâncias. De 1986 para 1987 tinha um acerto verbal e, como diz o americano, já tinha um shake hands (aperto de mão) com o Carl Hass para correr na Newman/ Hass em 1987. Estava tudo certo. No início do ano ele me liga dizendo que o Mário Andretti, que era o piloto da equipe, não queria um segundo carro de jeito nenhum. Acredito eu que pelo motivo de em 1986, por várias vezes, ter me classificado e terminado na frente dele com a pequena equipe do Dick Simon. Usávamos o carro Lola, só que a Newman Hass era a Lola de fábrica. Para concluir, me ofereci para fazer um teste na Jaguar em Paul Ricard e depois disso é história, acabei ganhando 5 corridas, o campeonato e foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha carreira.


(Renato Bellote) Em 1991 você chegou em segundo lugar nas 24 Horas de Le Mans. Qual foi a sensação de igualar o feito de José Carlos Pace nessa prova histórica?

Raul Boesel: Fui fã de Carlos Pace, infelizmente por pouco tempo, já que sua carreira foi interrompida. É claro que me sinto orgulhoso, da mesma maneira que é frustrante ter chegado tão perto de uma vitória nessa corrida tão tradicional.

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(Renato Bellote) E falando novamente sobre a versatilidade, no ano 2.000 sua atenção se voltou para a água. O que dá mais emoção: acelerar sobre quatro rodas ou a Cigarette com dois motores de 1.100 cv?

Raul Boesel: A sensação de velocidade na água é incrível, o barco chegava a 230 km/h, mas também a sensação de insegurança, o trabalho em equipe e a confiança mútua entre quem está no comando dos aceleradores (throttle man) e quem está pilotando tem que ser incrível. No meu caso eu pilotava e o Phil Lipschutz era o “throttle man”. Chegamos a fazer média horária no Campeonato Mundial em Key West, na Flórida, de 144 km/h com o mar com ondas de 6 pés. Difícil descrever a emoção.


(Renato Bellote) Muitas de suas vitórias ocorreram nas provas de endurance, como as 24 Horas de Daytona e Mil Milhas Brasileiras. Qual o ingrediente principal para vencer nesse tipo de corrida?

Raul Boesel: A primeira é ter uma equipe bem organizada e preparada para esse tipo de prova, saber fazer a estratégia da corrida, ter pilotos que sejam rápidos sem desgastar o equipamento em demasia, programar um ritmo de corrida competitivo e saber a hora de forçar mais o ritmo se for o caso.

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(Renato Bellote) Que balanço você faz do automobilismo brasileiro na atualidade?

Raul Boesel: Hoje a Stock Car sem dúvida é a categoria principal. Quando voltei para o Brasil definitivamente em 2003 e corri pela Equipe Repsol, acredito que abri os olhos de muitos outros pilotos mostrando que a categoria estava crescendo e se profissionalizando, podendo ser uma opção de carreira. Pilotos novos entraram na categoria assim como vários que não tiveram sorte em suas carreiras no exterior e estão hoje aí competindo e dando credibilidade à categoria. Já as categorias de fórmula não têm sustentabilidade, são muito caras e sem visibilidade, o que torna difícil para as equipes e também para os pilotos que estão visando uma carreira internacional.

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(Renato Bellote) Atualmente você assumiu com bastante êxito sua vertente de DJ. Como foi trocar o cockpit pelas pick ups? Já havia tido experiências anteriores com música?

Raul Boesel: Sempre gostei de música, fazendo ginástica, running, dentro do avião, no carro ou em casa. E é assim até hoje, acompanhei o desenvolvimento da música eletrônica que é o estilo que gosto. Para você ter uma idéia em 1980 quando fui para a Inglaterra correr de F-Ford assisti ao show “The Wall”, do Pink Floyd. Nos últimos 7 anos já fui a vários festivais fora do Brasil e vou todo ano para Ibiza que é o centro da música eletrônica durante o verão europeu. Inclusive, já tive a oportunidade de tocar lá esse ano. No final de 2006 depois de mais de 30 anos no automobilismo comecei a achar que estava na hora de parar e dar o lugar aos futuros campeões. Depois dessa decisão passei a me concentrar 100% para aprender a arte de ser DJ.


(Renato Bellote) O que podemos esperar de Raul Boesel para os próximos anos?

Raul Boesel: Estou levando essa nova profissão de DJ com o mesmo entusiasmo, profissionalismo e dedicação de minha carreira de piloto. Já faz dois anos que comecei, acabei de montar um estúdio em minha casa e estou tendo aulas de produção, espero em breve produzir várias músicas.
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